8. ARTES E ESPETCULOS 3.10.12

1. TELEVISO  PARTINDO PARA AS CABEAS
2. CINEMA  UM OSIS DE MONSTRUOSIDADE
3. CINEMA  CORTINA DE FUMAA
4. LIVROS  A SOLIDO DA LIBERDADE
5. LIVROS  EMOES MUITO FORTES
6. VEJA RECOMENDA
7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  OS MALES DO BRASIL

1. TELEVISO  PARTINDO PARA AS CABEAS
A srie nacional Sesso de Terapia transforma a psicologia em entretenimento. Sua qualidade atesta a evoluo do ator Selton Mello como diretor.
MARCELO MARTHE

     Selton Mello debatia-se com uma inquietao profissional quando comeou a fazer sesses de psicoterapia, h meia dcada. Ator desde criana, ele chegava aos 30 e poucos anos j consagrado no cinema e na TV. No se fala a s da fama, mas de artigo mais raro: o prestgio. Nunca se ps em questo seu talento. Mas o prprio jura que tinha dvidas. Eu no sabia se era feliz como ator, nem se desempenhava bem meu trabalho, diz. Enquanto vivia suas turbulncias existenciais, ele se aventurou em outra seara, a direo. Depois de fazer um curta-metragem e comandar um programa na TV paga, Mello estreou na funo de cineasta com um filme irregular, Feliz Natal, de 2008. Na segunda tentativa, enfim chegou l. Em O Palhao, visto por 1,5 milho de pessoas no ano passado, ele surgiu na tripla condio de ator principal, diretor e autor de uma trama que alude a suas prprias inseguranas profissionais. No filme, que acaba de ser escolhido para representar o Brasil na busca por uma indicao ao Oscar, ele  Benjamin, palhao em crise de identidade. Em sua mais nova empreitada, o crculo se fecha: ele dirige uma srie sobre a psicoterapia. Sesso de Terapia, que estreia nesta segunda-feira no canal GNT, confirma sua evoluo atrs das cmeras.
     Sesso de Terapia adapta para o Brasil um programa israelense que se converteu em item de sucesso na pauta de exportaes daquele pas. Sua verso mais conhecida  protagonizada pelo irlands Gabriel Byrne na HBO americana (alis, outro produto nascido na TV de Israel deu origem a uma das melhores sries dos Estados Unidos na atualidade, o thriller Homeland). Em Sesso de Terapia, quase tudo se passa num cenrio imutvel e modesto, o consultrio de um psiclogo. No caso brasileiro, ele se chama Theo e  vivido por Zcarlos Machado. A ao se concentra nos dilogos de realismo notvel entre o terapeuta e seus pacientes. A cada episdio, eles se alternam no consultrio. Mdica com dificuldade em estabelecer relacionamentos, Jlia (Maria Fernanda Cndido) desenvolve uma transferncia ertica em relao ao terapeuta. H tambm Nina (Bianca Mtlller), adolescente com tendncias suicidas, e Breno (Srgio Guiz), atirador de elite da policia traumatizado por ter matado uma criana. Theo faz as vezes, ainda, de terapeuta de casal: tenta mediar a conversa difcil entre Ana e Joo (Mariana Lima e Andr Frateschi), que divergem sobre a convenincia de ter um filho. No quinto dia da semana, a coisa se inverte: Theo  que vira paciente de Dora (Selma Egrei).
     Sesso de Terapia extrai ouro desse formato austero. Theo tem um tanto de anti-heri: por trs da mscara profissional impenetrvel, h um homem a um passo do colapso. Com problemas no casamento, ele se v na tentao de deitar e rolar em cima (ou por baixo) da paciente com transferncia ertica. Cada vez mais impaciente, Theo tambm incorre em outros tropeos ticos. A psicoterapia  usada em prol do suspense: a cada camada de autoengano removida dos pacientes, mais suas histrias ficam intrigantes. A sutileza  o elemento que azeita toda a engrenagem dramtica. A alma da srie est nas entrelinhas. Os silncios dizem muito, diz Mello. A  que a estrela dele faz a diferena. No roteiro da verso brasileira, h apenas alteraes pontuais em relao ao original  os pacientes se atrasam por causa do trnsito catico de So Paulo, e o atirador da polcia ocupa o lugar de um militar israelense. Mas, como ficou patente na vexaminosa adaptao nacional do novelo americano Desperate Housewives, levada ao ar em 2007 pela RedeTV!, no basta ser fiel para repetir o efeito de um sucesso estrangeiro. Se as interpretaes so frouxas, a receita desanda. Ao menos nos cinco primeiros episdios, Sesso de Terapia dribla tal risco com louvor. Num trabalho em que qualquer palavra ou suspiro requerem uma preciso de tom absoluta, no se pode menosprezar o peso da direo de atores. Detalhe: os 45 episdios foram gravados de uma enfiada s, ao ritmo de um por dia. O fato de eu ser ator contribuiu muito. Os colegas sentem quando o diretor tem essa sensibilidade, diz Melo.
     Esse jeitinho de, v l, diretor-psiclogo j revelara seu valor em O Palhao. Rostos havia muito cados no ostracismo, como o humorista Moacyr Franco e o ex-dolo infantil Ferrugem, tiveram a chance de brilhar em papis pequenos, mas marcantes. Isso se repete na escolha de Zcarlos Machado para o papel de equivalente nativo de Gabriel Byrne: nome desconhecido na TV, o veterano do teatro confere a expresso andina perfeita ao terapeuta.
     Assim como o psiclogo de Sesso de Terapia, por sinal, Selton Mello  uma espcie de esfinge. O ator-diretor tem 39 anos e vive num apartamento no bairro carioca do Humait. Ele no gosta muito de exposio. Eu sou mineiro. Isso j esclarece minha posio sobre o assunto, diz. Com seu jeito de urso com corao de ursinho, Mello arranca suspiros da mulherada. Mas at nesse pormenor ele prefere sair pela tangente. No momento, acho que no estou namorando, despista. Os exemplos em que diz se mirar  os atores-diretores Woody Allen e Clint Eastwood  do pistas de suas ambies. Mas ele  vago sobre os prximos projetos. No momento, estou indo. S no sei para onde ainda, diz. Est a um belo material para muitas sesses de terapia.


2. CINEMA  UM OSIS DE MONSTRUOSIDADE
Um resort sobrenatural o cenrio de Hotel Transilvnia.

     O conde Drcula converteu-se em proprietrio de um resort de luxo na Transilvnia. As instalaes contam com todas as comodidades modernas: piscinas, saunas, reas de lazer e uma rica  porm intransponvel vegetao. Entre os hspedes esto a Mmia, o Lobisomem e a criatura de Frankenstein. Trata-se de um osis de tranquilidade e monstruosidade, servido pela melhor cozinha francesa do chefe Quasmodo e de sua assistente, Esmeralda. A calma do lugar, porm, ser quebrada, s vsperas do aniversrio de 118 anos de Mavis, a filha de Drcula. pela chegada de um personagem ameaador  um rapaz humano. Humanos, como se sabe, costumam se armar de estacas e tochas para perseguir monstros. Mavis, no entanto, vai nutrir sentimentos carinhosos pelo visitante indesejado. Desenho animado do estdio Sony, Hotel Transilvnia (Estados Unidos, 2012), em cartaz a partir desta sexta-feira, combina a ideia de uma festa reunindo monstros clssicos  premissa de Mad Monser Party, animao de 1967  com a inverso de expectativas que fazia a graa de Monstros S.A.: neste mundo, so os seres sobrenaturais que tm medo das pessoas.
     Foram necessrios seis anos e seis diretores para que o filme sasse do papel. No final, coube a Genndy Tartakovsky (de Samurai Jack e do delicioso O Laboratrio de Dexter) a responsabilidade de levar a trama para as telas. A relao amorosa entre Mavis (no original, dublada por Selena Gomez, embora o papel de incio estivesse reservado a Miley Cyrus) e o humano Jonathan (Andy Samberg) , como se tornou praxe nas animaes recentes, um pretexto para exaltar a tolerncia e criticar o preconceito. No genuno esprito Shrek, porm, Hotel Transilvnia alcana o seu melhor nos lances pardicos. Drcula  um pai superprotetor e no bebe mais sangue humano porque este tem muito colesterol. Frankenstein  um tremendo po-duro, e o Lobisomem tem de cuidar de uma alcateia de inquietos bebs-lobinhos. Aos adultos, recomendam-se as verses legendadas.  uma maravilha ouvir o vozeiro tonitruante do cantor CeeLo Green, que faz a Mmia, e o impagvel sotaque romeno de Adam Sandler, como Drcula.
SRGIO MARTINS


3. CINEMA  CORTINA DE FUMAA
Qual  o verdadeiro Oliver Stone, o tolo que adora Hugo Chvez ou o que faz filmes vigorosos como Selvagens?

     Quando no est se comportando como o perfeito idiota americano e fazendo oba-oba para Hugo Chvez e a ditadura cubana, como no cabotino Ao Sul da Fronteira, Oliver Stone  ainda capaz de um trabalho vigoroso como Selvagens (Savages, Estados Unidos, 2012), que estreia nesta sexta-feira no pas. Adaptado pelo prprio autor, Don Winslow, de seu seco romance homnimo (lanado aqui pela Intrnseca), o filme , ao contrrio do livro, febril no sexo, na violncia e na luxria com que narra a histria de Chon (Taylor Kitsch), Ben (Aaron Johnson) e O., ou Ophelia (Blake Lively), que vivem um tringulo amoroso consensual e uma rotina de sol e praia numa casa na Califrnia, graas ao seu negcio prspero. O botnico Ben  um gnio da maconha: as linhagens que desenvolve chegam a ter mais de 30% de THC, o princpio ativo da Cannabis, contra os 10% da droga comum que est circulando no mercado. Chon, ex-fuzileiro naval, cuida das operaes e de impor a ordem a compradores e distribuidores. Trata-se de uma parte pequena do trabalho, uma vez que o trio acredita que  possvel ser ilcito e ser da paz. Pena que faltou combinar esse detalhe com os cartis mexicanos: quando sua proposta de aquisio de tecnologia  recusada, a narcorrainha Elena (Salma Hayek) decide fazer outro tipo de transferncia  a da adorada O. para um cativeiro em Tijuana, sob a guarda de estupradores, torturadores e decapitadores como Lado (Benicio Del Toro). E assim todos os melhores planos de Chon e Ben comeam a descarrilhar, e feio, apesar da ajuda de um agente federal corrupto encarnado com gosto e alegria por John Travolta.
     Salma, Travolta e Del Toro, todos em registro histrinico e atentos aos tons cmicos do roteiro, esto entre os prazeres proporcionados por Selvagens. Ainda que prazeres gratuitos e inconsequentes, j que isto aqui  Oliver Stone no mximo de seu considervel sensacionalismo. No se trata s da maneira como ele busca potencializar a violncia com a montagem fragmentada e os diversos tipos de fotografia (truques inovadores quando ele os usou em Assassinos por Narureza, h quase vinte anos, e hoje j assimilados pelo pblico), ou da explorao decididamente voyeurstica que faz do par central. Tem a ver, acima de tudo, com o fato de que  hbito de Stone fingir que esse seu estilo exaltado serve a um propsito maior, uma mensagem  por exemplo, teorias sobre o assassinato de JFK, ou denncias sobre a loucura pela celebridade. Selvagens no tem mensagem poltica, ideolgica, histrica, social nem de nenhuma outra ordem. Com muito boa vontade, tem um comentariozinho sobre relativismo cultural  mexicanos e americanos desprezam uns aos outros, reciprocamente, como selvagens. O frisson, aqui, serve s a si prprio, e nada tem a dizer. E no  que, em se tratando de Stone, fica bem melhor assim? 
ISABELA BOSCOV


4. LIVROS  A SOLIDO DA LIBERDADE
As memrias de Salman Rushdie, que j foi jurado de morte pelos radicais islmicos, expem a preocupante fraqueza com que o Ocidente defende seus valores.
NELSON ASCHER

Era uma alegria estar vivo naquela alvorada, disse o poeta romntico ingls William Wordsworth, referindo-se  Revoluo Francesa, de 1789. Testemunhar, 200 anos depois, os eventos de 1989 pode ter sido igualmente impressionante. O esclerosado bloco sovitico, simbolizado pelo Muro de Berlim, desmoronou de uma hora para a outra, abrindo os portes de uma priso de povos que, durante meio sculo, parecera indestrutvel. Em contrapartida, as manifestaes estudantis que reivindicavam liberdades semelhantes na China comunista terminaram com o massacre da Praa da Paz Celestial. Foi, no entanto, um evento aparentemente menor, protagonizado de incio por apenas dois indivduos, um romancista e um lder poltico-religioso, que se revelou o mais prenhe de graves desdobramentos futuros.
     Salman Rushdie, escritor anglo-indiano ento com 41 anos, nascido em Mumbai numa famlia muulmana secularizada e radicado na Inglaterra, tinha acabado de lanar seu quarto romance. Tratava-se de um emaranhado realista-fantstico (ou mgico) de narrativas cujo ttulo, Os Versos Satnicos, remetia  lenda de que alguns poucos versos do Coro, o livro sagrado dos muulmanos, haviam sido ditados a Maom no pelo arcanjo Gabriel, mas sim pelo prprio demnio. O livro provocou manifestaes e passeatas na ndia e no Paquisto, as quais, aos poucos, encontraram eco entre as comunidades islmicas da Inglaterra. Mas a coisa pegou mesmo fogo no s com a queima pblica do livro e da efgie do autor (alm,  claro, das esperadas bandeiras britnica, americana, israelense etc.), mas com a interveno do aiatol Khomeini, lder da Repblica Islmica do Ir.
     Nem Khomeini nem o Ir tinham jurisdio seja sobre o livro, seja sobre o escritor. No entanto, o aiatol, arvorando-se em promotor, juiz e potencial carrasco, acusou Rushdie de blasfmia e, numa fatwa, condenou-o  morte, sentena que era obrigao de todo e qualquer muulmano tentar executar e que se prometia recompensar com o paraso (e muito dinheiro). Pouco depois, o idoso clrigo morreria, e este seria um de seus mais terrveis legados: o direito que autoridades muulmanas, religiosas ou no, se arrogam desde ento, colocando-se acima das leis e costumes dos demais pases bem como das normas internacionais, de impor a prpria vontade fora de suas fronteiras, no mundo inteiro.
     Foi em 14 de fevereiro de 1989 que Rushdie soube, por uma jornalista da BBC, que havia sido condenado  morte. Passou os nove anos seguintes se escondendo com um nome falso (Joseph Anton, homenagem aos escritores Joseph Conrad e Anton Tchekhov) e sob a proteo do servio secreto britnico. Joseph Anton  Memrias (traduo de Jos Rubens Siqueira e Donaldson M. Garschagen; Companhia das Letras; 616 pginas; 54,50 reais)  sobretudo o relato desses anos. Se bem que o autor fala de sua infncia e famlia, de seus estudos, amores e primeiros livros, tudo isso no passa de preldio, assim como o que vem depois  apenas um rpido eplogo.
     Escrito por quem esteve no olho do ciclone, Joseph Anton  tambm um documento essencial de nosso tempo. Narrado em terceira pessoa, detm-se nos detalhes da vida privada e cotidiana do perodo: o convvio com o filho, a relao com os amigos (quase sempre escritores, editores, agentes literrios) que o ajudaram e com os agentes que o protegeram, a dissoluo de seu segundo casamento, o namoro do qual nasceu seu terceiro matrimnio. Tudo o que Rushdie conta se revela necessrio  compreenso em profundidade do quadro maior, poltico e tambm cultural (alm de religioso). Este quadro , antes de mais nada, o duelo de um indivduo com as foras do fanatismo religioso. Um duelo que, a rigor, ele no buscou, mas do qual tampouco teve como escapar.
     Fazendo do autor um caso exemplar, o objetivo daquelas foras era (e segue sendo), por um lado, confiscar as liberdades dele  e, portanto, as nossas  uma a uma, comeando pela (fundamental) de expresso. Era tambm, por outro, criar um clima de perptuo medo. Superando, pelo menos neste episdio, rivalidades como as que contrapem sunitas e xiitas, os fanticos muulmanos de todos os tipos (mas sempre quase exclusivamente do sexo masculino) promoveram manifestaes pblicas cada vez mais agressivas, violentas e ameaadoras, no somente no Ir e em outras naes islmicas, mas nas principais cidades de naes ocidentais. Muitos desses pases, tendo abolido a pena de morte at para os mais hediondos crimes de sangue, assistiram ao espetculo de massas histricas que a exigiam para ofensas meramente simblicas e para delitos de opinio. E a reao dos nativos nem sempre foi louvvel: em vez de cerrarem fileiras em defesa de valores e liberdades arduamente conquistadas no correr de sculos, no faltaram intelectuais, escritores, jornalistas de esquerda e de direita que, ao sabor das mais variadas agendas, mesmo quando no endossavam toda a violncia, exibiam um excesso de compreenso para com as suscetibilidades, para com os sentimentos supostamente feridos e a honra supostamente maculada dos seguidores de uma determinada religio.
     Uma nova e importante aliana entre o radicalismo islmico e a esquerda revolucionria comeou a se delinear ento. Embora tenha sempre entendido as religies  as ocidentais, pelo menos  como alienao ideolgica a ser combatida, a esquerda radical comeou a tomar o partido do islamismo militante por consider-lo uma manifestao autntica da revolta das massas do Terceiro Mundo contra o grande inimigo comum, os Estados Unidos. Assim, a colaborao antirracista que se estabelecera na Europa entre imigrantes secularizados e esquerdistas moderados acabou sacrificada. A mobilizao contra Os Versos Satnicos permitiu que clrigos radicais e pregadores obscurantistas impusessem sua vontade e assumissem a liderana em comunidades muulmanas que, de outro modo, poderiam ter se integrado e adotado a modernidade democrtica das sociedades nas quais viviam. Como resultado, hoje os muulmanos europeus so mais religiosamente autoritrios, intolerantes e autossegregados do que eram vinte anos atrs. Mudando continuamente de residncia, andando de carro blindado, voando em avies militares, acompanhado de guarda-costas, encontrando o filho, parentes e amigos em segredo, Rushdie, que no cometera crime algum, viveu quase uma dcada como um detento no s encarcerado, mas de fato num corredor da morte,  espera do caador de recompensas, do terrorista ou do agente iraniano que o mataria. O perigo era real: tradutores e editores seus foram em toda parte atacados e at mortos; editoras foram ameaadas, livrarias sofreram atentados a bomba. Os sucessores de Khomeini no governo iraniano renovavam ano a ano a sua fatwa. Por tudo que se sabe, dedicaram-se a tentar implement-la at que, sob presso internacional e sabe-se l por que razes mais, finalmente a suspenderam, em 1998, o que permitiu ao autor retomar uma vida normal (se bem que no de todo livre da ameaa do eventual lobo solitrio).
     Rushdie sobreviveu, mas no se pode dizer o mesmo da liberdade de expresso e de pensamento nas democracias ocidentais. Se, duas dcadas atrs, o grosso da intelectualidade ainda tomou o partido do escritor perseguido e da causa que ele simbolizava, tal combatividade esmoreceu com o tempo, ou foi engolida pela aliana entre a esquerda e o fundamentalismo. Em 2006, durante a crise detonada pelas charges dinamarquesas que caricaturavam Maom e o Isl, a quantidade de literatos, acadmicos e outros beneficirios da democracia e da modernidade que tomaram o partido dos censores e dos candidatos a carrasco crescera assustadoramente. E agora, quando uma nova crise  atiada por um vdeo tosco veiculado pelo YouTube, parece ser ainda menor o nmero dos que se dispem a encarar os brbaros para lhes dizer que  proibido proibir. O episdio Rushdie escancarou diferenas fundamentais entre, por um lado, o mundo democrtico e liberal moderno e, por outro, o assim chamado mundo islmico. Provavelmente, a mais fundamental dessas diferenas  a seguinte: os teocratas, os fundamentalistas e os jihadistas esto muito mais dispostos a lutar por aquilo em que acreditam do que a intelectualidade ocidental.
     O prprio Rushdie, no entanto, desautoriza o rtulo com que fundamentalistas e simpatizantes buscam estigmatizar seus crticos: o autor de Os Versos Satnicos no pode de forma alguma ser tachado de islamofbico. Entre as realizaes mais importantes de sua fico, destaca-se uma fuso ou sntese dos ocidentes com, pelo menos, certos orientes. Rushdie costuma citar, como seus modelos narrativos, O Oceano dos Rios de Histrias, do indiano Somadeva, e a grande coletnea rabe As Mil e Uma Noites  cuja traduo em portugus, a partir da lngua original, acaba de ser concluda no Brasil com o lanamento de Livro das Mil e Uma Noites  Volume 4 (traduo de Mamede Mustafa Jarouche: Globo; 528 pginas; 59,90 reais). Com sua riqueza humana, cheia de vida, erotismo e humor, os contos das Mil e Uma Noites so, para Rushdie, a perfeita contrapartida, no mundo rabe-islmico,  obsesso linear e unidimensional do fanatismo, do exclusivismo e do supremacismo religioso. Alis, no s para Rushdie: desde a primeira grande traduo ocidental, do francs Antoine Galland, no sculo XVIII, foi graas a esse prisma ldico que o Ocidente se interessou pelo mundo rabe.
     Salman Rushdie chegou perto de ser morto por ter contado uma histria que no agradou a certos representantes do mundo islmico que tinham mais poder do que compreenso histrica e literria de sua prpria cultura. No  de todo acidental, assim, que ele admire o novelo de histrias que Sherazade desenrola aos poucos para escapar  pena capital, enredando um monarca paranoico e sanguinrio nas delcias alternativas da fico, at apazigu-lo.


5. LIVROS  EMOES MUITO FORTES
Uma nova biografia de Tchaikovsky derruba o mito do homem aflito e torturado. Mas o compositor foi uma personalidade to exacerbada quanto sua msica.
SRGIO MARTINS

     O russo Alexander Poznansky tinha 17 anos quando se apaixonou pela obra de Piotr Ilitch Tchaikovsky (1840-1893). Ele havia acabado de chegar a So Petersburgo quando assistiu a uma encenao de O Lago dos Cisnes pelo tradicionalssimo Bal Kirov. Foi naquele momento que senti necessidade de conhecer melhor aquele homem. No o Tchaikovsky que escutava na rdio, mas sim o homem por trs daquelas obras, disse em entrevista a VEJA. A dedicao de Poznansky, hoje com 62 anos, resultou em doze livros a respeito do compositor russo. O mais recente, Piotr Tchaikovsky: Biografia (traduo de Alexey Lazarev; G. Ermakoff Casa Editoral: 904 pginas: 90 reais), chega ao Brasil antes de seu lanamento nos Estados Unidos e na Europa, em traduo direta do russo. Trata-se de um retrato de Tchaikovsky, o ser humano, mais do que um estudo aprofundado sobre sua obra. O autor teve acesso a documentos pessoais inditos, sobretudo cartas  muitas delas falando da vida amorosa do compositor.
     Poznansky pe por terra a ideia de que Tchaikovsky teria imensos conflitos com sua homossexualidade.  fictcia a criatura torturada que se via na histrinica cinebiografla Delrio de Amor, do ingls Ken Russell (por ironia, estrelada por Richard Chamberlain, que passou dcadas no armrio). Tchaikovsky parece ter tido uma vida sexual rica e variada. Amou homens e mulheres  mas principalmente homens. Em 1861, ano em que fez sua primeira viagem a Paris, apaixonou-se por Frederico, um jovem de uma grande formosura, conforme escreveu aos irmos. Dezesseis anos depois, em Florena, rendeu-se aos servios de um garoto de programa. Passei duas horas em um ambiente dos mais romnticos. Voltei para casa cansado e extenuado, mas com recordaes maravilhosas, escreveu. Seus dois relacionamentos mais longos com mulheres foram menos satisfatrios. Casou-se com Antonina Miliukova em 1877, mas ela no aceitou bem as inclinaes do marido  que, depois da separao, se referia a ela como verme ou aquele ser. Com a negociante Nadejda von Meck, que veio a se tornar seu mecenas, o relacionamento se baseou mais em admirao artstica do que em contato fsico  e esfriou quando, ao passar por dificuldades econmicas, Nadejda deixou de financi-lo. A nova biografia tambm traz um relato cuidadoso da morte do compositor. Em 1979, a musicloga russa Alexandra Orlova lanou a tese de que o compositor teria sido obrigado a cometer suicdio, por ordem de um nobre russo que estaria incomodado com os avanos de Tchaikovsky sobre seu sobrinho. Essa histria j fora desmentida pelo prprio Poznansky e pelo ingls Anthony Holden, e ganha sua p de cal definitiva no livro. Poznansky reconstitui o avano da doena que debilitou e matou o compositor  o clera. O mdico de Tchaikovsky demorou a perceber e tratar os sintomas do mal.
     Um amante onvoro e exacerbado que tem sua vida ceifada por uma doena terrvel (s faltou ser tuberculose, o mal do sculo): Tchaikovsky foi, afinal, uma personalidade tpica do romantismo, e sua msica  uma das realizaes mais extremas desse movimento  a ponto de muitos a considerarem at, digamos, brega. Sua obra caiu em desgraa no incio da Revoluo Russa de 1917. Os comunistas abominavam a religiosidade e o monarquismo do compositor (que, como relata Poznansky, foi por muito tempo sustentado pelo czar Alexandre III). Em meio  patriotada que  1812, uma de suas composies mais famosas, ouve- se o hino Deus Salve o Czar. Nos anos 1930, Tchaikovsky seria reabilitado. E, fora da Rssia, sempre contou com admiradores de peso. O impressionista Debussy  que foi professor de msica das filhas de Nadejda  se inspirou em Romeu e Julieta e na Quarta Sinfonia para criar algumas de suas composies. Mahler regeu vrias das sinfonias de Tchaikovsky e era apaixonado pela pera Eugene Onegin. E at o modernista Stravinsky reconheceu a beleza de suas obras. A contribuio de Tchaikovsky para a msica foi revolucionria no bal. Ele deu uma estrutura sinfnica  msica para dana, com melodias, estruturas rtmicas e orquestraes inovadoras. O Lago dos Cisnes at hoje  o grande cavalo de batalha para as principais companhias de bal em todo o mundo. Foi a msica que encantou Poznansky  e, afinal, motivou esta biografia extraordinria.

O LTIMO ROMNTICO
As obras essenciais e as gravaes imperdveis da obra de Tchaikovsky.
Concerto para Piano: Martha Argerlch, Claudio Abbado e Filarmnica de Berlim
Para o pianista e maestro Vladimir Ashkenazy (que, alis, tem uma verso memorvel deste concerto), esta pea  um timo veculo para um instrumentista mostrar sua tcnica nas teclas. A gravao de Martha Argerich  insupervel: larga, sentimental e com um primeiro movimento impecvel  mrito tambm do acompanhamento do regente Abbado.

Sinfonias 4, 5 e 6: Evgeny Mravisnky e Filarmnica de Leningrado 
A Filarmnica de Leningrado (hoje So Petersburgo)  o smbolo da excelncia da escola musical russa. As verses destas sinfonias, gravadas em Londres sob o comando de seu ento diretor artstico, Evgeny Mravinsky, vm embebidas do tradicional sentimentalismo russo: as passagens lentas so derramadas, e os momentos mais sombrios, tensos.

Concerto para Violino: Vadim Repin, Valery Gerglev e Orquestra do Bal Kirov 
Esta obra tem passagens solo to desafiadoras que o virtuose Leopold Auer, a quem o concerto foi dedicado, se recusou a toc-la. Vadim Repin a registrou em disco duas vezes. Esta aqui  de longe a melhor: tem virtuosismo e emoo na medida certa, alm dos belos tons que Repin tira de seu violino.


6. VEJA RECOMENDA

LIVROS
MATISSE: UMA VIDA, DE HILARY SPURLING (TRADUO DE CLAUDIO ALVES MARCONDES; COSAC NAIFY; 592 PGINAS; 109 REAIS)
 Na segunda metade dos anos 30, quando j acumulava quatro dcadas de carreira, o pintor francs Henri Matisse fez um desabafo para a filha mais velha: A preocupao que me persegue  que vou acabar sendo esquecido. Matisse colhia ento o pior de dois mundos. De um lado, muita gente se escandalizava com a sensualidade de suas odaliscas e com a memria dos tempos radicais em que ele capitaneou a tropa de artistas conhecidos como fauves (feras). Por outro lado, os apreciadores de primeira hora se desencantavam com o que viam como rendio  banalidade e ao hedonismo nas suas obras maduras. Como demonstra a historiadora inglesa Hilary Spurling nesta que  a melhor biografia do artista, o tempo s confirmaria a grandeza de Matisse. Por trs da suposta facilidade de seu trabalho, h uma incansvel busca da beleza em estado puro. Dos padecimentos de um homem que passou boa parte de seus 84 anos preso  cama por causa de molstias digestivas s suas reflexes sobre a arte, o Matisse retratado pela autora  maior do que aquele pintado por certo senso comum dos manuais sobre arte moderna.

NEIL YOUNG: A AUTOBIOGRAFIA (TRADUO DE RENATO REZENDE E HELENA LONDRES; GLOBO; 408 PGINAS; 49,90 REAIS)
 O cantor e compositor canadense Neil Young sempre disse que jamais escreveria um livro sobre a prpria vida. No ano passado, porm, ele foi obrigado a uma temporada de repouso depois de quebrar o p em um acidente domstico  e resolveu reverter sua deciso. Assim nasceu Neil Young: a Autobiografia, na qual o autor de alguns dos maiores hinos do rock (Hey Hey, My My e Rockin in the Free World) fala de sua carreira, de sua vida pessoal  e de sua paixo por trens de brinquedo e carros antigos. A prosa memorialstica de Young no tem a fluncia de S Garotos, a estupenda autobiografia de Patti Smith. O livro tampouco  to rico em fofocas e detalhes picantes quanto Vida, de Keith Richards. Mas h passagens reveladoras. Young reconstitui com emoo sua amizade com David Crosby, Stephen Stills e Graham Nash, com quem formou uma banda famosa. Conta que comps o clssico Like a Hurricane entorpecido pela cocana. E faz um relato saboroso do absurdo processo que David Geffen, dono da Geffen Records, moveu contra ele por gravar discos diferentes do estilo Neil Young.

CINEMA
LOOPER  ASSASSINOS DO FUTURO (LOOFER, ESTADOS UNIDOS, 2012. J EM CARTAZ)
 Diretor de Mosca, um dos mais extraordinrios episdios da srie Breaking Bad, Rian Johnson pode ser criticado, em Looper, pelo excesso de ideias  tantas que poderiam render uns trs filmes. Como em geral a ressalva que se faz ao cinema americano atual  a oposta, de que a maioria dos longas no tem enredo suficiente sequer para um curta, este misto de fico cientfica, aventura e especulao existencial merece seu lugar ao sol. Em 2042, Joseph Gordon-Levin  Joe, membro de um grupo de assassinos, os loopers, especializados em eliminar vtimas enviadas a eles de trs dcadas  frente.  responsabilidade dos loopers encerrar sua carreira matando seus prprios eus futuros  o que lhes d vrios anos de bem paga aposentadoria. Joe, porm, falha em aniquilar sua verso madura (papel de Bruce Willis), que quer identificar  e assassinar  uma criana que vir a se tornar uma figura nefasta no futuro. Passa-se assim da fico distpica para uma caada e, dela, para um drama austero com toques sobrenaturais, quando o jovem Joe se refugia numa fazenda com a sempre irresistvel Emily Blunt e o filho pequeno dela. Ainda que no seja um grande filme, conta como trs bons mdias-metragens.

DISCO
TROPICLIA LIXO LGICO, TOM Z (INDEPENDENTE)
 O mais inquieto dos tropicalistas, Tom Z se manteve fiel ao experimentalismo. Enquanto seus companheiros de movimento aderiam a formatos mais pop, ele desconstrua o samba (no disco Estudando o Samba, de 1976) e criava at uma orquestra de enceradeiras. As ousadias restringiram seu pblico a um punhado de poucos e bons, mas ningum o supera em criatividade. O novo trabalho do cantor e compositor baiano, Tropiclia Lixo Lgico,  um disco de tese sobre a vanguarda dos anos 60. Tom Z elenca fontes improvveis para a esttica tropicalista, da filosofia grega  msica rabe e celta. Essas curiosas ideias so apresentadas na forma de samba, marcha-enredo e rock, ou em temas ambiciosos como Tropicalea Jacta Est. experimental at a medula na sua juno de mitologia grega e poesia concreta. Da geleia geral de Tom Z participam o rapper Emicida, a cantora Mallu Magalhes (surpreendente em O Motobi e Maria Clara) e o cantor Rodrigo Amarante. Produo independente, o disco pode ser encontrado em lojas especializadas ou encomendado pelo e-mail lbibi@uol.com.br.

EXPOSIO
OBSERVADORES: FOTGRAFOS DA CENA BRITNICA DE 1930 AT HOJE (AT 25 DE NOVEMBRO NO CENTRO CULTURAL FIESP  RUTH CARDOSO, SO PAULO)
 Na Inglaterra de 1937, o antroplogo Tom Harrison, o poeta Charles Madge e o cineasta Humphrey Jennings criaram o projeto Mass Observation, com o objetivo de documentar os hbitos e costumes da classe trabalhadora  um contraponto  imagem aristocrtica que os ingleses ento vendiam ao mundo. Sete dcadas depois, essa iniciativa de observao do cotidiano volta a ser explorada pelos curadores Joo Kulcsr (brasileiro) e Martin Craiger-Smith (ingls). Eles reuniram 240 imagens  selecionadas de acervos ilustres como os da Tate e da National Portrait Gallery de Londres  para mostrar as vrias transformaes da vida inglesa (a II Guerra, a recesso econmica, os punks etc.), levando em conta os diferentes padres estticos e recursos tcnicos de cada poca. L esto os socialites de Cecil Beaton, a moda de Norman Parkinson, o engajamento poltico de Martin Parr e as poticas paisagens urbanas de Ruth Blees Luxemburg  entre vrios outros , exibindo uma Inglaterra que, diz Craiger-Smith,  inconstante, incompleta, complexa e contraditria.


7. OS LIVROS MAIS VENDIDOS
FICO
1. Cinquenta Tons Mais Escuros  E.L. James. INTRNSECA
2. Cinquenta Tons de Cinza  E.L. James. INTRNSECA 
3. A Dana dos Drages  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
4. A Guerra dos Tronos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
5. O Festim dos Corvos  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
6. A Fria dos Reis  George R.R. Martin. LEYA BRASIL
7. A Tormenta de Espadas.  George R.R. Martin. LEYA BRASIL 
8. Toda Sua  Sylvia Day. PARALELA 
9. Um Porto Seguro  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 
10.  A Escolha  Nicholas Sparks. NOVO CONCEITO 

NO FICO
1. Nada a Perder  Edir Macedo. PLANETA
2. A Queda  Diogo Mainardi. RECORD 
3. Guia Politicamente Incorreto da Filosofia  Luiz Felipe Pond. LEYA BRASIL 
4. Guia Politicamente Incorreto da Histria do Brasil  Leandro Narloch. LEYA BRASIL
5. No H Dia Fcil  Mark Owen e Kenin Maurer. PARALELA
6. Nunca Fui Santo  Marcos Reis e Mauro Beting. UNIVERSO DOS LIVROS 
7. As Melhores Receitas do Que Marravilha!  Claude Troisgros. GLOBO 
8. Guia Politicamente Incorreto da Amrica Latina  Leandro Narloch. LEYA BRASIL
9. Uma Breve Histria do Cristianismo  Geoffrey Blainey. FUNDAMENTO 
10. O Pas dos Petralhas II  Reinaldo Azevedo. RECORD

AUTOAJUDA E ESOTERISMO
1. Mentes Brilhantes  Alberto DellIsola. UNIVERSO DOS LIVROS 
2. Agapinho  gape para Crianas  Padre Marcelo Rossi. GLOBO 
3. Desperte o Milionrio que H em Voc  Carlos Wizard Martins. GENTE 
4. Casamento Blindado  Renato e Cristiane Cardoso. THOMAS NELSON BRASIL
5. O Monge e o Executivo  James Hunter. SEXTANTE 
6. Nietzsche para Estressados  Allan Percy. SEXTANTE
7. A Menina do Vale  Bel Pesce. CASA DA PALAVRA 
8. Encantadores de Vidas  Eduardo Moreira. RECORD
9. gape  Padre Marcelo Rossi. GLOBO
10. Pelas Portas do Corao  Zibia Gasparetto. VIDA & CONSCINCIA


8. ROBERTO POMPEU DE TOLEDO  OS MALES DO BRASIL
     Muitas cidades deste vasto Brasil dispem daqueles semforos com botes que, apertados pelos pedestres, prometem lhes proporcionar a vez de atravessar a rua. O nome cientfico do equipamento  botoeira, segundo se l nos textos dos rgos de trnsito. H pessoas que no acreditam neles. Seriam to eficazes quanto uma caixa de papelo pespegada no mesmo local. H razes para isso. No poucas vezes aperta-se o boto e nada. Os mais afoitos ento o apertam e reapertam, seguidamente, como se quisessem despertar o duende l dentro que far o mecanismo funcionar. Tambm ocorre de o pedestre aproximar o dedo e no encontrar o boto. Por desgaste ou vandalismo foi tirado de onde deveria estar, e o que resta  um buraco, qual desgraado olho vazado. Em So Paulo h vrios nessa situao. Quando sero consertados?  melhor esquecer. A cultura do conserto e da manuteno  alheia ao modo de ser brasileiro.
     Continuemos nosso passeio pela rua. O que  verdade para as botoeiras ser tambm para as caladas. Aos buracos, afundamentos, calombos, corroses e outras irregularidades que vierem a se instalar estar desde logo assegurada uma longa vida. H buracos que chegam a comemorar dois, trs, cinco anos de existncia. A eles se junta o festival de diferentes calamentos a que muitas vezes se est sujeito num nico quarteiro: ao piso de cimento sucede o de pedrinhas, ao qual sucede o de ladrilhos, numa srie de estorvos  caminhada  qual se soma a barafunda esttica. O incmodo no  apenas para os deficientes, os idosos ou as mes que empurram carrinhos de beb.  tambm para quem possui as duas pernas e est no pleno gozo delas. Em muitas cidades, talvez a maioria, a responsabilidade pela manuteno da calada  do morador. Sim, mas cabe  prefeitura fiscalizar. Quando vir a fiscalizao?  melhor esquecer. A fiscalizao, irm da manuteno, tambm  estranha ao modo de ser brasileiro.
     O passeio ainda no terminou. Imaginemo-nos no centro do Rio, esquina das ruas da Quitanda e Sete de Setembro. O poste que indica o nome dessas ruas, em vez de ereto, como se espera dos postes em pleno exerccio de sua funo e investidos de sua dignidade, apresentava-se, at h pouco tempo, tristemente vergado, ameaando despencar sobre a cabea dos passantes, e assim permaneceu durante dias, at ser flagrado por foto enviada por um leitor ao site do jornal O Globo. Ao poste carioca correspondia um paulistano, tambm do tipo que exibe as placas com o nome das ruas, na esquina da Avenida Pacaembu com a Rua Margarida. At pouco tempo atrs ele se encontrava na mesma situao humilhante, se  que no se encontra ainda. Cariocas e paulistanos, irmanados, confirmam a lei segundo a qual a falta de fiscalizao e a falta de manuteno os males do Brasil so.
     E quanto aos buracos no meio da rua? So nossos velhos conhecidos, indissociveis da paisagem nas cidades brasileiras. Em alguns, to profundos que capazes de ocasionar graves acidentes, almas caridosas fincam um pedao de pau para alertar os motoristas, ou os cobrem com uma pedra. Tais almas caridosas sabem que at o poder pblico se abalar a corrigir a situao pavorosos desastres podero ocorrer. Mais peculiar ainda ao modo de ser brasileiro que os buracos  a incapacidade de bem consert-los. O conserto costuma ser to incompetente que resulta num calombo. Raras vezes o cho fica igualado como devia. Como resultado, o buraco  trocado por uma protuberncia. Verdade que com frequncia o conserto malfeito  obra das concessionrias de servios pblicos, que abrem o buraco para reparar fiaes ou encanamentos e no o fecham direito. A fiscalizao, no entanto, de novo cabe s prefeituras.
     Estamos a poucos dias das eleies municipais. Os singelos exemplos colhidos neste passeio pelas ruas estendem-se s grandes coisas. Tal qual nas pobres botoeiras sem boto ou nos buracos miseravelmente mal tapados, tambm nas pontes e nos viadutos, nos hospitais e nas escolas, a falta de fiscalizao e a falta de manuteno os males do Brasil so. Da que o colunista tenha uma sugesto a fazer ao eleitor. Escolha o candidato que se comprometa a no realizar nenhuma obra nova  nenhuma! , mas a manter e fiscalizar a j existentes. Haver tal candidato? Poltico gosta de inaugurar. Nada os entedia mais do que ter de fazer a coisa funcionar, depois. Mesmo porque isso pode ser deixado ao sucessor, que por sua vez estar empenhado em inaugurar algo novo, e no em manter o que foi inaugurado pelo antecessor. No custa tentar, porm. Esforce-se o eleitor, procure. Quem sabe exista algum diferente, a na sua cidade.


